
Eu e o Helton pouco antes da largada.
Ontem testei uma combinação pouco provável: churrasco + prova. E nessa ordem mesmo, primeiro um churrasco e depois de algumas horas, uma prova de 7,5Km num percurso sobe-desce, sob um calor do cão. Também passeei entre duas realidades totalmente opostas. Conto abaixo com mais detalhes.
Tava em casa já pensando no que iria fazer de almoço quando o telefone toca. Era um amigo me convidando para um churrasco em sua casa. Pouca gente, apenas ele e a esposa, o irmão com a esposa e a criançada. Irrecusável. E lá fomos nós.
O lugar já é maravilhoso. A casa fica num condomínio fechado, que pra quem conhece, lembra um pouco Alphaville em SP. Aquelas casas todas sem portão, lindas fachadas, quadras de tênis, salões de festa… enfim, se existe pedaços do paraíso pra se morar, ali é um dos endereços.
Chegamos lá e o meu filho já correu se enturmar com a criançada. Ele era o mais novo dos que tavam por ali, mas rapidamente já se entrosou e caiu na brincadeira.
Nós ficamos numa área externa da casa, onde fica a churrasqueira. Logo ao lado a piscina e um deck de madeira, com aquelas cadeiras gostosas. Ficamos ali batendo papo e beliscando alguns tira-gostos até a carne sair. Com muito custo consegui até que pegar leve nos amendoins e batatas chips. Tava com a prova em mente, e com a certeza da largada às 4 da tarde. O calor e o sol eram desanimador.
Picanha, queijo coalho, salada, pão de alho… e pra quem gosta, cervejinha trincando de gelada. Mas até que consegui segurar bem. Comi como um humano normal… rs Até tentaram me induzir a tomar uma cervejinha, baseados em estudos científicos, e com conhecimento pra falar isso, dizendo que um abstêmio vive menos que alguém que toma uma dose de álcool diariamente.
Confesso que aquela tulipa com uma marca de chop turvo delicioso deu água na boca, mas depois de tanto tempo sem beber, achei mais prudente me manter apenas na água e no refrigerante.
Nessa hora meu filho já tava correndo pra rua sem camisa e com uma pistolinha de água na mão, fazendo guerra de água com a criançada. Acho que foi a primeira vez na vida que ele brincou no meio de uma rua, pois lá é muito tranquilo. Onde moro isso é impossível.
E quando o papo é bom e estamos cercados de gente bacana, infelizmente a hora passa rápido demais. Faltando pouco para as 16 horas, percebendo o calor e o tamanho do sol que me esperava lá fora, decidi desistir da prova. Liguei para meu amigo Helton , que também iria correr pra avisar da minha desistência mas logo me disse que a largada havia siso mudada para às 17h30, justamente por causa do calor. Bom, estava dentro novamente.
Continuamos ali batendo papo, a criançada brincando… putz, que lugar gostoso. E podem ter certeza que aquele casal merece cada centímetro daquele espaço divino, conquistado às custas de muita ralação, já que ambos trabalham muuuuuuuito! Plenamente merecedores.
Faltando 30 minutos pra largada, troquei minha roupa, nos despedimos e partimos para a prova. Realmente foi um churrasco muito agradável, com pessoas bacanas demais. Até a saída do condomínio, a gente vai devagarinho com o carro, apreciando aquelas casas, sonhando um dia poder morar num lugar daqueles. Quem sabe né? Sonhar todos podemos.

Imagem referencial do naipe das casas do condomínio
Chegando no local da prova, conhecemos o outro lado da moeda.
A prova acontece pelo 3º ano num dos bairros mais carentes da cidade. A prova não tem chip, não tem fechamento de rua. Toda a estrutura e montada de forma bem artesanal pelo pessoal de uma igreja e conta com a participação da comunidade.
Cheguei em cima da hora e corri fazer minha inscrição. Para o meu espanto, ganhei até uma camiseta da prova, em algodão. O mais legal é que tinha até a opção entre umas 4 cores para eu escolher.
Feita a inscrição, um papel sulfite com o nome e idade preenchidos a mão é colocado dentro de um saco plástico e esse sim é grudado na camiseta, com alfinetes. Não há número de peito.
Fomos pra largada. Acho que uns 100 corredores. As mulheres largaram 1 minuto na nossa frente. Logo foi a nossa vez. Toca a sirene e partimos num retão enorme. Logo já fui ficando lá pra trás, já que a maioria dos corredores são daqueles de associações, magrelinhos e que correm de verdade.
Tentei manter o meu ritmo, aumentei um pouco na descida e logo chegamos na parte mais difícil. Esse bairro, por onde a corrida passou, é novo, afastado da cidade. São casinhas populares sorteadas para a população carente, que antes abrigavam favelas e que foram, logo depois do sorteio, alvos de invasão, muita luta em moradores e polícia.
Sem fechamento da rua e com os corredores bem espalhados, corri praticamente sozinho no meio daquele bairro, cheio de sobe e desce, passando por entre aquelas casinhas extremamente simples e inacabadas, sem muros, dividindo espaço nas ruas com mobiletes, bicicletas e muitas crianças, que na nossa passagem nos davam a mão e tentavam nos acompanhar correndo. Um barato.
Até a água, nos dois pontos de hidratação, eram distribuídos pela criançada, que pegava nas caixas e vinham nos trazer. A população do bairro também aproveitou e encheu as calçadas de cadeira pra acompanhar os malucos correndo sob um calor de rachar.
Cruzei todo o bairro e comecei fazer o caminho de volta. Apesar de sentir uma alegria muito grande daquela população, não é difícil perceber que morar ali deve ser barra. É longe da cidade, e ainda faltam coisas básicas no bairro.
Bairro por onde passamos na corrida de ontem. Fizemos todas estas ruas, até lá em cima onde aparece na foto.
Correndo num sacrifício muito grande, sem água, já que a quantidade de copinhos foi muito pequena, os lábios rachando de sede e a FC pra cima dos 100%, consegui cruzar o último subidão e fechar os 7,5K em 46 min. Terminei bem cansado. Procurei por água e tive que sentar um pouco. A FC demorou uns 10 minutos pra baixar dos 100bpm mesmo parado. Foi punk. Mas novamente, muito gratificante. Tive a oportunidade de conhecer um lado da cidade que de outra forma nunca iria ter coragem de passar, já que é, além de tudo, um bairro muito violento.
Num mesmo dia pude passar algumas horas no melhor e mais bonito condomínio da cidade e logo em seguida, correr dentro do mais pobre e carente bairro da cidade. Duas emoções diferentes em tão pouco tempo. Realidades opostas, porém verdadeiras.
Foi um sábado realmente muito engrandecedor e diferente. Valeu demais a experiência.
Uma excelente semana pra todos vocês, e um bom feriadão pra quem vai emendar e curtir mais um dia com os pés pra cima!
E vamos correndo!










